Crédito recusado? Pode ter sido um algoritmo — e tem direito a saber

Nuno Cruz

23 de Fevereiro, 2026

Mulher preocupada a olhar para portátil após possível recusa de crédito bancário (imagem ilustrativa)

Recebeu um “pedido de crédito recusado” sem grande explicação? Pode não ter sido um gestor — pode ter sido um algoritmo.

Com a nova Lei Europeia da Inteligência Artificial (AI Act) e o que já prevê o RGPD, os consumidores em Portugal passam a ter mais direitos quando decisões importantes são tomadas por sistemas automáticos.

Em resumo: o que mudou

  • Os bancos podem usar algoritmos para avaliar crédito.
  • Mas decisões totalmente automatizadas dão-lhe direito a explicação.
  • Pode pedir intervenção humana.
  • Pode contestar a decisão.
  • Tem direito a saber que dados foram usados.

Os bancos usam mesmo Inteligência Artificial?

Sim. A maioria utiliza modelos de scoring automático para calcular risco. Estes sistemas analisam:

  • Rendimentos e estabilidade profissional
  • Histórico de crédito
  • Taxa de esforço
  • Registos de incumprimento
  • Padrões estatísticos de risco

O problema surge quando a decisão é exclusivamente automatizada e o cliente não recebe explicação clara.

O seu direito legal (artigo 22.º do RGPD)

Se a decisão foi tomada apenas por algoritmo, pode:

  • Exigir confirmação de que houve decisão automatizada
  • Pedir explicação “significativa” da lógica usada
  • Solicitar revisão por uma pessoa
  • Contestar formalmente

Com o AI Act, sistemas de avaliação de crédito são considerados de alto risco, o que implica maior controlo e auditoria.

Como perguntar ao banco (modelo simples)

Exmos. Senhores,

Ao abrigo do artigo 22.º do RGPD, solicito confirmação sobre se a decisão relativa ao meu pedido de crédito foi tomada com base em decisão exclusivamente automatizada, bem como explicação significativa sobre a lógica envolvida e possibilidade de intervenção humana.

Cumprimentos,

Quando deve suspeitar

  • Resposta muito rápida (minutos ou horas)
  • Justificação vaga ou genérica
  • Impossibilidade de falar com um responsável

Se houver irregularidades

Pode apresentar reclamação junto da CNPD (dados pessoais) ou do Banco de Portugal (supervisão bancária).

A tecnologia não elimina os seus direitos. Pelo contrário: a nova legislação reforça-os.

O que já está em vigor e o que entra agora em aplicação

✔ Já está em vigor (RGPD — desde 2018)

  • Direito a não ficar sujeito a decisões exclusivamente automatizadas com efeitos significativos.
  • Direito a obter intervenção humana.
  • Direito a contestar a decisão.
  • Direito a receber informação sobre a lógica subjacente ao tratamento automatizado.

🆕 Lei Europeia da IA (AI Act — Regulamento UE 2024/1689)

O AI Act entrou formalmente em vigor em 2024, mas a aplicação é faseada. Os sistemas utilizados para avaliação de crédito são classificados como sistemas de “alto risco”, o que implica:

  • Obrigação de gestão de risco e documentação técnica.
  • Registos de auditoria.
  • Supervisão humana efetiva.
  • Requisitos de qualidade dos dados usados.

As obrigações completas para sistemas de alto risco aplicam-se progressivamente até 2026, mas muitas instituições financeiras já estão a adaptar os seus sistemas para cumprir o regulamento.

Nota

A recusa de crédito baseada em modelos automáticos não é ilegal por si só. O que a lei exige é que:

  • Não seja uma decisão exclusivamente automatizada sem salvaguardas.
  • O cliente possa solicitar revisão humana.
  • Haja transparência suficiente sobre os critérios usados.

Além disso, a lei não obriga o banco a revelar o “código” do algoritmo, mas sim a fornecer explicação significativa sobre os fatores determinantes da decisão.

Ou seja: não tem direito à fórmula matemática completa, mas tem direito a saber porque é que foi recusado.

Fontes