A possibilidade de um El Niño em 2026 voltou a ganhar força nas previsões climáticas internacionais. Com isso, reapareceu também uma expressão mais chamativa: “super El Niño”.
Convém separar as coisas. Um El Niño em 2026 é cada vez mais provável, segundo organismos como a NOAA, a WMO e o IRI. Já a ideia de “super El Niño” continua a ser uma forma mediática de falar de um evento muito forte, não uma categoria oficial usada nas atualizações principais.
O ponto essencial é este: há sinais fortes de El Niño em 2026, mas ainda não há confirmação de que será extremo nem de quais serão os impactos concretos em Portugal.
Em poucas linhas
- O El Niño é uma fase do fenómeno ENSO, ligado ao aquecimento anómalo do Pacífico equatorial.
- A NOAA, agência norte-americana de oceanos e atmosfera, indica 82% de probabilidade de El Niño entre maio e julho de 2026.
- A WMO, Organização Meteorológica Mundial, diz que um El Niño é esperado a partir de meados de 2026.
- O IRI, instituto da Universidade de Columbia, aponta para probabilidades muito elevadas de El Niño ao longo de 2026.
- “Super El Niño” não é uma categoria oficial da NOAA, WMO ou IRI.
- A intensidade máxima ainda é incerta.
- Não se deve transformar este cenário numa previsão direta para Portugal.
O que é o El Niño?
O El Niño faz parte do fenómeno ENSO, sigla inglesa para El Niño-Southern Oscillation. Este fenómeno tem três fases: El Niño, La Niña e fase neutra.
Durante El Niño, há um aquecimento anómalo das águas superficiais no centro e leste do Pacífico equatorial. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica tropical e pode influenciar padrões de chuva, seca, temperatura e tempestades em várias regiões do mundo.
A WMO explica que El Niño e La Niña são as componentes oceânicas do ENSO, enquanto a Oscilação Sul representa a componente atmosférica. O fenómeno é monitorizado sobretudo através das anomalias da temperatura da superfície do mar no Pacífico equatorial.
Em termos simples: o El Niño começa no Pacífico, mas pode mexer com o tempo em várias zonas do planeta.
Antes de avançar: o que significam as siglas?
Este tema usa várias siglas internacionais, mas a ideia base é simples.
- ENSO: significa “El Niño-Southern Oscillation”. É o fenómeno climático que inclui três fases: El Niño, La Niña e fase neutra.
- NOAA: é a agência norte-americana que acompanha oceanos, atmosfera, clima e meteorologia.
- CPC: é o Climate Prediction Center, o centro da NOAA que publica atualizações sobre o estado do ENSO.
- WMO: é a Organização Meteorológica Mundial, uma agência das Nações Unidas especializada em meteorologia, clima e água.
- IRI: é o International Research Institute for Climate and Society, da Universidade de Columbia, que publica previsões climáticas sazonais.
- ECMWF: é o Centro Europeu de Previsão Meteorológica a Médio Prazo, usado como referência em previsão meteorológica e climática.
Estas entidades são importantes porque ajudam a distinguir previsão científica, probabilidade e especulação mediática.
Porque se fala agora num possível “super El Niño”?
Fala-se nisso porque os modelos passaram a mostrar uma probabilidade elevada de desenvolvimento de El Niño em 2026 e porque algumas previsões admitem a possibilidade de um evento forte ou muito forte.
A NOAA, através do seu centro de previsão climática, o CPC, indica que o El Niño é provável em breve, com 82% de probabilidade entre maio e julho de 2026, e que deverá continuar durante o inverno do hemisfério norte, com 96% de probabilidade entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027.
O IRI, instituto da Universidade de Columbia que acompanha previsões climáticas sazonais, também aponta para uma transição rápida no Pacífico equatorial. Na atualização de maio, atribui 98% de probabilidade a El Niño no período maio-julho de 2026 e mantém probabilidades muito elevadas ao longo do resto do ano.
Além disso, há sinais de aquecimento no oceano superficial e subsuperficial do Pacífico equatorial. Esses sinais podem favorecer a intensificação do fenómeno, se a atmosfera responder de forma favorável.
Mas “super El Niño” é uma expressão oficial?
Não.
A expressão “super El Niño” é usada muitas vezes em media e redes sociais para falar de eventos muito fortes, mas não é uma categoria oficial nas atualizações principais da NOAA, WMO ou IRI.
As entidades oficiais falam antes em El Niño, La Niña ou condições neutras, e em diferentes níveis de intensidade quando analisam anomalias de temperatura no Pacífico.
Esse detalhe é importante. Dizer que há risco de um El Niño forte não é o mesmo que dizer que está confirmado um “super El Niño”. A segunda expressão é mais apelativa, mas também mais propensa a exagero.
O que diz a NOAA?
A NOAA, através do CPC, indica que o El Niño é provável em breve e que deverá persistir durante o inverno do hemisfério norte 2026/2027.
Na atualização de 14 de maio de 2026, a NOAA/CPC aponta para 82% de probabilidade de El Niño entre maio e julho e 96% de probabilidade entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027.
Mas a mesma discussão acrescenta uma cautela essencial: ainda há incerteza sobre a força máxima do evento.
O outlook de força da NOAA mostra uma possibilidade relevante de El Niño forte ou muito forte no fim de 2026, mas isso não elimina a incerteza sobre a evolução real do fenómeno.
O que diz a WMO?
A WMO, Organização Meteorológica Mundial, diz que um El Niño é esperado a partir de meados de 2026 e que poderá afetar padrões globais de temperatura e precipitação.
A WMO também sublinha que os eventos de El Niño têm, em geral, um efeito de aquecimento na temperatura média global.
Mas a entidade é prudente: não há dois eventos de El Niño iguais. A intensidade, duração, altura do ano em que se desenvolvem e interação com outros padrões climáticos influenciam os impactos.
Isto significa que a presença de El Niño aumenta certos riscos globais, mas não define automaticamente o que vai acontecer em cada país.
O que diz o IRI?
O IRI aponta para uma transição rápida no Pacífico equatorial.
Na atualização de maio, refere que as condições estão a passar rapidamente para El Niño e que as probabilidades se mantêm muito elevadas ao longo de 2026 e início de 2027.
Ao mesmo tempo, o IRI recomenda cautela. A atualização lembra que as previsões de longo prazo ainda devem ser lidas com prudência, porque há limitações próprias dos modelos sazonais.
Em linguagem simples: os modelos apontam numa direção clara, mas a intensidade final ainda precisa de confirmação nos próximos meses.
Porque os modelos ainda podem falhar na intensidade
A incerteza não é contradição. É parte normal da previsão sazonal.
O ECMWF, centro europeu de previsão meteorológica, explica que nesta fase do ano existe a chamada barreira de previsibilidade da primavera. Entre março e maio, as mudanças no sistema tropical do Pacífico são historicamente mais difíceis de prever.
O mesmo centro nota que os modelos podem mostrar uma gama alargada de possíveis anomalias de temperatura para mais tarde no ano. Isso significa que há consenso sobre a probabilidade de El Niño, mas menos certeza sobre a força final.
A intensidade dependerá de fatores como a resposta dos ventos alísios, o acoplamento entre oceano e atmosfera, a evolução do calor subsuperficial no Pacífico e a interação com outros padrões climáticos.
Que impactos globais costuma ter o El Niño?
O El Niño pode alterar padrões de temperatura e precipitação em várias regiões do mundo.
De forma geral, tende a elevar a temperatura média global. A WMO lembra que os eventos de El Niño costumam ter efeito de aquecimento, embora os impactos concretos variem muito por região.
Os impactos típicos podem incluir:
- maior probabilidade de calor global acima do normal;
- mudanças nos padrões de chuva em regiões tropicais;
- maior risco de seca em algumas zonas;
- maior risco de chuva intensa e cheias noutras regiões;
- alterações na atividade de ciclones tropicais;
- impactos em agricultura, pescas, água e segurança alimentar;
- aumento do risco de branqueamento de corais em mares mais quentes.
Estes são impactos globais e regionais típicos. Não são uma previsão automática para todos os países.
Porque não se deve transformar isto numa previsão direta para Portugal?
Portugal não está numa das regiões onde o sinal de El Niño é mais direto e estável.
O clima português depende muito da circulação atmosférica no Atlântico Norte, da posição do anticiclone dos Açores, da Oscilação do Atlântico Norte, de depressões, frentes, bloqueios atmosféricos e padrões regionais que podem dominar a escala sazonal.
Por isso, dizer “vem aí El Niño” não permite concluir automaticamente que Portugal terá mais calor, mais chuva, seca ou tempestades num determinado mês.
O El Niño pode influenciar o sistema climático global, mas a tradução para Portugal é indireta e depende de outros fatores. Para os portugueses, o mais útil é acompanhar previsões sazonais oficiais e, no curto prazo, previsões do IPMA.
O que pode ser relevante para Portugal?
Mesmo sem previsão direta, o tema não deve ser ignorado.
Um El Niño forte pode aumentar a temperatura média global e influenciar mercados agrícolas, preços de matérias-primas, disponibilidade de água em algumas regiões do mundo e riscos humanitários em países mais vulneráveis.
Esses efeitos podem chegar de forma indireta a Portugal através de energia, alimentos, comércio internacional, turismo ou alertas globais de saúde e clima.
No plano meteorológico português, porém, é cedo para tirar conclusões. O acompanhamento deve ser feito com base no IPMA, nos boletins sazonais e nas atualizações internacionais.
El Niño e alterações climáticas: qual é a ligação?
É importante não misturar tudo.
O El Niño é um fenómeno natural de variabilidade climática. Mas acontece hoje num planeta mais quente do que no passado.
Um oceano e uma atmosfera mais quentes podem amplificar alguns impactos associados, porque há mais energia e humidade disponíveis para extremos como ondas de calor e chuva intensa.
Ou seja, o El Niño não é sinónimo de alterações climáticas. Mas um evento de El Niño num planeta mais quente pode ter impactos mais pesados em algumas regiões.
O que falta confirmar nos próximos meses?
Há vários pontos críticos a acompanhar.
- se o El Niño se instala oficialmente nos boletins da NOAA e WMO;
- se o oceano e a atmosfera ficam realmente acoplados;
- se os ventos alísios enfraquecem de forma sustentada;
- se o aquecimento subsuperficial chega à superfície;
- qual será a anomalia máxima na região Niño 3.4;
- se a intensidade chega a forte ou muito forte;
- quanto tempo dura o evento;
- como interage com outros padrões climáticos, como a circulação do Atlântico Norte;
- o que dizem as previsões sazonais oficiais para a Europa e para Portugal.
Quando haverá mais confiança?
A confiança das previsões deverá aumentar ao longo do verão e início do outono.
Depois da primavera, a interação entre oceano e atmosfera tende a ficar mais clara. Se o El Niño evoluir como os modelos sugerem, os próximos boletins da NOAA, WMO e IRI deverão confirmar não só a presença do fenómeno, mas também dar pistas mais sólidas sobre a intensidade provável.
Até lá, o mais prudente é falar de probabilidade elevada de El Niño, não de certeza sobre um evento extremo.
Como acompanhar sem cair em alarmismo
O melhor é acompanhar fontes oficiais e evitar títulos que transformem probabilidades em certezas.
Para seguir o tema, vale a pena consultar:
- as discussões mensais da NOAA/CPC;
- as atualizações da WMO;
- as previsões do IRI;
- as previsões sazonais europeias, como C3S/ECMWF;
- em Portugal, os boletins e previsões do IPMA.
Também é útil olhar para indicadores concretos quando houver episódios de calor em Portugal. O N-Notícias já explicou o que significa o Índice UV e que cuidados deve ter.
Em resumo
Há sinais fortes de que o El Niño pode desenvolver-se em 2026 e persistir até ao inverno de 2026/2027. NOAA, WMO e IRI apontam todos para essa possibilidade com níveis elevados de confiança.
Mas “super El Niño” não é uma categoria oficial e ainda não está confirmado que o evento seja extremo. A intensidade máxima depende de processos oceânicos e atmosféricos que só ficarão mais claros nos próximos meses.
Para Portugal, a leitura deve ser prudente: El Niño pode ter impactos globais relevantes, mas não permite prever diretamente o tempo no país. O acompanhamento deve continuar, sem alarmismo e sem certezas antes do tempo.
Fontes: