Hantavírus: o que é o vírus de que se fala

Nuno Cruz

11 de Maio, 2026

Representação artística de partículas de hantavírus, usada para ilustrar sintomas, transmissão e risco em Portugal.

O termo “hantavírus” voltou às pesquisas e às notícias nos últimos dias.

A expressão “novo vírus” tem circulado, mas não é a mais correta. Os hantavírus são conhecidos pelas autoridades de saúde e estão normalmente associados a roedores.

O ponto essencial é este: o caso merece atenção, mas o risco para a população geral na Europa e em Portugal é considerado muito baixo pelas autoridades de saúde.

Em poucas linhas

  • O hantavírus não é um vírus novo.
  • O tema voltou às notícias por causa de um surto associado ao navio de cruzeiro MV Hondius.
  • O vírus identificado neste surto é o vírus dos Andes, uma forma de hantavírus.
  • A transmissão acontece sobretudo através de contacto com roedores infetados ou com urina, fezes ou saliva contaminadas.
  • O vírus dos Andes pode transmitir-se entre pessoas, mas isso é raro e costuma exigir contacto próximo e prolongado.
  • O risco para a população geral da UE/EEE é considerado muito baixo pelo ECDC.
  • Em Portugal, informação publicada no SNS indica que o risco é muito baixo e que não há medidas preventivas nacionais a implementar.

Porque é que se fala agora do hantavírus?

O tema ganhou visibilidade por causa de um surto associado ao navio de cruzeiro MV Hondius, que viajava no Atlântico Sul.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o surto foi comunicado a 2 de maio de 2026, depois de serem identificados passageiros com doença respiratória grave a bordo do navio.

A 8 de maio, a OMS indicava oito casos reportados, incluindo três mortes. Seis casos estavam confirmados laboratorialmente como infeções por hantavírus, todos identificados como vírus dos Andes.

O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças, conhecido pela sigla ECDC, indicava a 10 de maio o mesmo total de oito casos associados ao navio, seis confirmados e dois prováveis, com três mortes.

A situação está a ser acompanhada por autoridades internacionais, com medidas específicas para passageiros, tripulantes e contactos de risco.

O hantavírus é novo?

Não.

Os hantavírus são um grupo de vírus conhecido há décadas. Circulam sobretudo em roedores e podem, em certas circunstâncias, passar para humanos.

A confusão nasce porque o surto é recente e porque envolve o vírus dos Andes, uma forma de hantavírus presente na América do Sul. Esta variante tem uma característica importante: pode transmitir-se entre pessoas, embora de forma rara.

Mesmo assim, não estamos perante uma situação comparável à COVID-19. O ECDC e a OMS indicam que a transmissão entre pessoas exige, em regra, contacto próximo e prolongado.

Como se transmite o hantavírus?

A forma mais comum de transmissão é o contacto com roedores infetados ou com partículas contaminadas pela sua urina, fezes ou saliva.

Essas partículas podem ser inaladas quando se mexe em locais fechados, pouco ventilados ou contaminados por roedores.

Também pode haver transmissão por mordedura de roedor, embora seja menos comum.

No caso específico do vírus dos Andes, existe possibilidade de transmissão entre pessoas. Ainda assim, a OMS descreve essa transmissão como incomum e associada sobretudo a contacto próximo e prolongado, como em ambiente doméstico ou contacto íntimo.

Quais são os sintomas?

Segundo a OMS, os sintomas podem começar entre uma e oito semanas após a exposição, dependendo do tipo de vírus.

Os sinais iniciais podem incluir:

  • febre;
  • dor de cabeça;
  • dores musculares;
  • arrepios;
  • náuseas;
  • vómitos;
  • dor abdominal;
  • diarreia.

Em casos mais graves, a doença pode evoluir para tosse, falta de ar, dor no peito, acumulação de líquido nos pulmões, choque ou complicações renais, dependendo do tipo de hantavírus.

Estes sintomas também podem aparecer noutras infeções. Por isso, o contexto é essencial: contacto com roedores, viagem recente, permanência em zona de risco ou contacto próximo com um caso suspeito ou confirmado.

Qual é o risco em Portugal?

Com a informação disponível, o risco para a população em geral em Portugal é considerado muito baixo.

O ECDC considera muito baixo o risco para a população geral da União Europeia e do Espaço Económico Europeu. A OMS avalia o risco global deste evento como baixo, embora considere moderado o risco para passageiros e tripulantes do navio afetado.

Em Portugal, a Unidade Local de Saúde do Médio Tejo, integrada no SNS, publicou informação essencial sobre o hantavírus, indicando que o risco no país é muito baixo e que não há necessidade de implementar medidas preventivas a nível nacional.

Isto não significa ignorar o tema. Significa enquadrá-lo com rigor: há um surto concreto, há pessoas a ser acompanhadas e há investigação em curso, mas não há indicação de transmissão generalizada em Portugal.

Quando deve pedir ajuda?

Para a maioria das pessoas em Portugal, não há motivo para alterar rotinas por causa deste surto.

Deve procurar orientação se esteve no navio afetado, teve contacto próximo com alguém ligado ao surto ou regressou recentemente de uma zona onde o vírus dos Andes é endémico e desenvolveu sintomas compatíveis.

Se tiver dúvidas de saúde sem sinais graves, pode contactar o SNS 24. Já explicámos em detalhe quando deve ligar para o SNS 24 ou para o 112.

Se houver falta de ar, dor no peito, alteração do estado de consciência, agravamento rápido ou outra situação grave, deve ligar 112.

Como reduzir riscos no dia a dia?

As medidas mais úteis passam por reduzir o contacto com roedores e com locais contaminados.

  • evite mexer em excrementos ou ninhos de roedores sem proteção;
  • ventile espaços fechados antes de limpar;
  • não levante pó ao varrer locais com sinais de roedores;
  • use limpeza húmida quando houver suspeita de contaminação;
  • guarde alimentos em recipientes fechados;
  • sele aberturas que possam permitir a entrada de roedores;
  • mantenha casas, anexos e garagens limpos e sem fontes fáceis de alimento.

Estas recomendações fazem sentido em qualquer contexto em que exista risco de presença de roedores. Não são medidas extraordinárias.

Não confundir com outros alertas de saúde

Este tema não deve ser confundido com outros alertas de saúde pública, como a presença de mosquitos capazes de transmitir dengue, zika ou chikungunya.

No caso dos mosquitos, o risco está ligado à presença de vetores como o Aedes albopictus. Já explicámos que o mosquito que pode transmitir dengue já foi detetado em 28 concelhos, mas esse é outro tipo de risco e outra forma de transmissão.

No hantavírus, o foco principal está nos roedores e, no caso do vírus dos Andes, na possibilidade rara de transmissão entre pessoas em contactos próximos e prolongados.

Em resumo

O hantavírus voltou às pesquisas por causa de um surto associado a um navio de cruzeiro. A situação é séria para as pessoas diretamente envolvidas, mas não deve ser tratada como um “novo vírus” a circular livremente em Portugal.

As autoridades internacionais consideram baixo o risco para a população geral, e a informação publicada em Portugal descreve o risco nacional como muito baixo.

A leitura mais prudente é esta: acompanhar fontes oficiais, evitar alarmismo e procurar ajuda médica se houver sintomas relevantes associados a exposição de risco.

Fontes: