Porque existe o Dia das Mentiras? O que se sabe sobre a origem de 1 de abril

Nuno Cruz

31 de Março, 2026

Duas pessoas num ambiente interior a preparar uma partida inocente, ilustrando o Dia das Mentiras

No Dia das Mentiras, vale quase tudo desde que a partida seja leve e sem maldade. O que não vale é fingir que os historiadores já resolveram a grande pergunta sobre a data.

Ninguém sabe ao certo como nasceu o 1 de abril como dia de partidas e notícias falsas. Há várias teorias conhecidas, algumas mais populares do que outras, mas nenhuma conseguiu fechar a questão de forma definitiva.

O que existe, isso sim, são pistas históricas, referências antigas e uma tradição que já estava bem viva na Europa há vários séculos.

Em poucas linhas

  • A origem exata do Dia das Mentiras continua sem consenso histórico.
  • A primeira referência considerada segura a partidas de 1 de abril surge num poema flamengo de 1561.
  • Uma das teorias mais repetidas liga a data a mudanças no calendário em França, mas não há prova decisiva.
  • Também existem hipóteses ligadas ao equinócio da primavera, à festa romana Hilaria e a Chaucer.

O que se sabe com mais segurança

O ponto mais sólido é este: o costume de enganar alguém a 1 de abril já existia no século XVI. A Library of Congress identifica como primeira referência certa um poema flamengo de 1561, de Eduard De Dene, em que um nobre envia o seu servo em recados absurdos e inúteis.

Mais tarde, em 1686, surge uma das primeiras referências claras em inglês, quando John Aubrey descreve o dia como “Fooles Holy Day”. Isso mostra que a tradição já circulava de forma reconhecível em vários pontos da Europa.

O que os historiadores conseguem provar melhor não é o nascimento da tradição, mas sim que ela já estava instalada há séculos.

A teoria mais famosa: a mudança do calendário em França

Uma das explicações mais repetidas liga o Dia das Mentiras à França do século XVI. Segundo essa teoria, a confusão teria começado quando o início do ano deixou de estar associado ao período da primavera e passou para 1 de janeiro. Quem continuou agarrado ao calendário antigo teria passado a ser alvo de gozo e de partidas.

É uma teoria popular porque parece fazer sentido e encaixa bem no espírito da data. O problema é que não há prova conclusiva de que tenha sido essa a verdadeira origem. Além disso, a referência flamenga de 1561 é anterior à explicação mais repetida sobre a mudança de calendário em França.

Outras teorias que costumam aparecer

Há outras hipóteses conhecidas. Uma delas aproxima o 1 de abril da festa romana de Hilaria, celebrada em finais de março. Outra relaciona a data com o equinócio da primavera, altura de mudanças rápidas de tempo e de alguma ideia simbólica de engano da natureza.

Também há quem tente encontrar uma pista em Chaucer e nos Canterbury Tales, mas essa leitura continua discutida e longe de resolver o mistério.

Em todos estes casos, o padrão é o mesmo: são teorias interessantes, mas sem prova suficiente para fechar a origem do Dia das Mentiras.

Porque é que o 1 de abril pegou tão bem?

Mesmo sem uma certidão de nascimento clara, a lógica da tradição percebe-se. Um dia dedicado a enganar, rir e apanhar alguém desprevenido encaixa bem em culturas onde as festas de primavera, a inversão temporária de regras e o humor social sempre tiveram espaço.

Os registos mais antigos mostram precisamente isso: partidas simples, recados inúteis, pequenas humilhações sem grande gravidade e uma ideia comum de pôr alguém a fazer figura de tolo por um instante.

É provavelmente por isso que a data sobreviveu tão bem. Não depende de cerimónias complexas nem de grandes preparações. Basta uma mentira leve, uma vítima distraída e um contexto em que toda a gente já sabe que pode estar a ser enganada.

Como a tradição se manteve noutros países

O 1 de abril não é vivido da mesma forma em todo o lado. Em França, a vítima da partida é chamada poisson d’avril, ou “peixe de abril”, e é comum colar discretamente um peixe de papel nas costas de alguém. Na Escócia, a data ficou ligada ao chamado Gowkie Day, com o cuco a funcionar como símbolo do tolo.

Essas variações mostram que a tradição não ficou presa a um único formato. Mudou de língua, mudou de símbolo, mas manteve a mesma ideia de base: brincar com o engano durante um dia socialmente aceite para isso.

Em resumo

O Dia das Mentiras existe há séculos, mas a sua origem exata continua por provar. O que se sabe melhor é que a tradição já estava documentada no século XVI e que as explicações mais famosas, como a teoria francesa do calendário, continuam a ser hipóteses, não certezas.

Fontes: