O autismo de nível 1 pode ser diagnosticado apenas na idade adulta. Algumas pessoas chegaram à universidade, mantiveram empregos ou construíram relações sem que as dificuldades sociais, sensoriais e de adaptação a mudanças fossem reconhecidas como parte do espetro do autismo.
O nível 1 não significa ausência de dificuldades. Significa que a pessoa necessita de apoio, embora as suas necessidades possam ser menos visíveis para quem a rodeia.
Em poucas linhas
- O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento presente desde a infância.
- O diagnóstico pode surgir apenas na idade adulta.
- O nível 1 significa “necessita de apoio”.
- Não é definido pela inteligência, pelo emprego ou pela capacidade de falar.
- Os sinais envolvem comunicação social, rigidez, interesses restritos e diferenças sensoriais.
- Questionários online não confirmam nem excluem o diagnóstico.
- No SNS, o primeiro passo pode ser falar com o médico de família.
- A avaliação inclui a história da infância e o diagnóstico diferencial.
- Não existe uma análise ao sangue, ressonância ou teste genético que confirme sozinho o autismo.
O que é o autismo de nível 1?
O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento que acompanha a pessoa ao longo da vida.
As suas características centrais agrupam-se em duas grandes áreas:
- diferenças ou dificuldades persistentes na comunicação e interação social;
- comportamentos, interesses ou atividades restritos, repetitivos ou pouco flexíveis.
Também são frequentes diferenças na forma como a pessoa reage a sons, luz, cheiros, texturas, toque, dor ou temperatura.
Na classificação do DSM, o nível 1 corresponde a uma pessoa que necessita de apoio. Sem esse apoio, as dificuldades podem interferir de forma clara com as relações, o trabalho, os estudos, a organização quotidiana ou a capacidade de lidar com mudanças.
O nível 1 não significa “quase não ter autismo” nem ausência de necessidades de apoio.
Porque não se deve chamar simplesmente “autismo ligeiro”?
A expressão “autismo ligeiro” pode esconder dificuldades relevantes.
Uma pessoa pode falar com fluência, viver sozinha ou ter um emprego exigente e, ao mesmo tempo, precisar de muito esforço para interpretar situações sociais, suportar determinados ambientes ou recuperar depois de um dia de interação.
As necessidades também podem ser diferentes entre áreas. Uma pessoa pode necessitar de menos apoio na comunicação e de mais apoio para gerir mudanças, estímulos sensoriais ou rotinas.
O nível não mede inteligência, valor pessoal, capacidade profissional ou sofrimento. Descreve o apoio necessário perante as características do autismo e o seu impacto no funcionamento.
Quais são os sinais de autismo de nível 1 em adultos?
Não existe um sinal único que permita identificar o autismo. As características variam muito entre pessoas e devem estar presentes, ainda que de forma diferente, desde o período de desenvolvimento.
Dificuldades na comunicação e interação social
- dificuldade em iniciar, manter ou terminar uma conversa;
- não perceber facilmente quando é a sua vez de falar;
- interpretar expressões de forma muito literal;
- dificuldade em compreender ironia, indiretas ou regras sociais implícitas;
- contacto visual desconfortável ou mantido de forma consciente e ensaiada;
- discurso demasiado formal em situações informais;
- dificuldade em perceber o estado emocional ou as intenções de outra pessoa;
- problemas em criar ou manter amizades;
- necessidade de recuperar a sós depois de interações sociais prolongadas.
Necessidade de rotina e dificuldade com mudanças
- ansiedade ou irritação perante alterações inesperadas;
- necessidade de planear detalhadamente atividades e deslocações;
- preferência forte por horários e procedimentos previsíveis;
- dificuldade em mudar rapidamente de tarefa;
- tendência para repetir percursos, refeições ou formas de fazer determinada tarefa;
- desconforto quando outra pessoa interrompe uma rotina.
Interesses muito intensos
Uma pessoa autista pode desenvolver interesses muito específicos, aprofundados ou duradouros.
O sinal não está apenas no tema escolhido. Está na intensidade, no tempo dedicado, na dificuldade em mudar o foco ou no impacto que esse interesse tem noutras áreas da vida.
Estes interesses também podem constituir fontes importantes de prazer, conhecimento, competência profissional e ligação com outras pessoas.
Diferenças sensoriais
- incómodo intenso com ruídos que outras pessoas toleram;
- dificuldade em ambientes com muitas conversas simultâneas;
- sensibilidade a luzes fortes ou intermitentes;
- aversão a determinadas texturas de roupa ou alimentos;
- reação intensa a cheiros ou sabores;
- necessidade de procurar determinados movimentos, pressões ou estímulos;
- perceção da dor ou da temperatura diferente da esperada.
Comportamentos repetitivos menos visíveis
Os comportamentos repetitivos em adultos nem sempre correspondem aos estereótipos mais conhecidos.
Podem incluir mexer repetidamente nas mãos ou em objetos, balançar uma perna, repetir frases mentalmente, organizar objetos, ouvir a mesma música ou realizar pequenos movimentos para recuperar a calma e regular a atenção.
O que é o masking ou camuflagem?
Algumas pessoas aprendem a observar e reproduzir comportamentos sociais para esconder ou compensar dificuldades.
Podem ensaiar conversas, preparar respostas, obrigar-se a manter contacto visual, imitar expressões ou estudar conscientemente regras que outras pessoas parecem aplicar de forma intuitiva.
Estas estratégias podem ajudar em determinados contextos, mas exigem esforço. Também podem dificultar o reconhecimento das características do autismo durante muitos anos.
A existência de camuflagem não confirma o diagnóstico. Deve ser analisada em conjunto com a história de desenvolvimento e o funcionamento atual.
Porque pode o autismo ser diagnosticado apenas em adulto?
As características do autismo começam no período de desenvolvimento, mas podem tornar-se mais evidentes quando as exigências sociais, académicas ou profissionais aumentam.
Durante a infância, algumas dificuldades podem ter sido interpretadas como timidez, distração, teimosia, ansiedade, comportamento solitário ou “mania de rotinas”.
O diagnóstico também pode surgir depois de:
- um filho ou familiar receber um diagnóstico de autismo;
- anos de acompanhamento por ansiedade ou depressão;
- dificuldades persistentes no trabalho ou nas relações;
- esgotamento associado a ambientes sociais ou sensoriais exigentes;
- contacto com informação mais rigorosa sobre autismo em adultos.
Ter estes sinais significa ser autista?
Não.
Muitas destas características também podem surgir em pessoas sem autismo ou estar associadas a outras condições.
Para existir um diagnóstico, é necessário verificar um padrão consistente de características, presente desde o desenvolvimento inicial e com impacto significativo no funcionamento atual.
Uma lista encontrada na Internet não consegue avaliar a história completa da pessoa, os contextos em que surgem as dificuldades ou outras explicações possíveis.
Como se faz o diagnóstico de autismo em adultos?
O diagnóstico é clínico. Não depende de uma única consulta, questionário ou resultado automático.
A avaliação costuma incluir várias componentes.
1. Entrevista sobre as dificuldades atuais
O profissional procura perceber como a pessoa funciona em diferentes áreas:
- comunicação e relações;
- trabalho ou estudos;
- rotinas e autonomia;
- interesses;
- sensibilidades sensoriais;
- saúde mental;
- estratégias usadas para compensar dificuldades.
2. História da infância e adolescência
O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento. Por isso, é necessário procurar sinais presentes desde a infância, mesmo que tenham sido subtis ou interpretados de outra forma.
Quando possível e com o consentimento da pessoa, a avaliação pode incluir uma conversa com familiares ou cuidadores que conheçam o seu desenvolvimento inicial.
Também podem ser úteis:
- relatórios escolares;
- avaliações psicológicas anteriores;
- registos de saúde;
- descrições de comportamento em criança;
- informação sobre linguagem, brincadeiras, amizades e interesses.
A falta destes documentos não impede necessariamente uma avaliação, mas pode obrigar a uma reconstrução mais cuidadosa da história de desenvolvimento.
3. Avaliação das características do autismo
O profissional verifica se estão presentes as características exigidas pelas classificações clínicas usadas no diagnóstico.
Podem ser utilizados questionários, entrevistas estruturadas e tarefas de observação. Estes instrumentos ajudam a organizar a avaliação, mas não substituem o julgamento clínico nem devem ser usados isoladamente.
4. Diagnóstico diferencial
A avaliação deve procurar outras condições capazes de explicar ou acompanhar as dificuldades.
Entre as situações que podem precisar de ser analisadas estão:
- perturbação de hiperatividade e défice de atenção;
- ansiedade social ou generalizada;
- depressão;
- perturbação obsessivo-compulsiva;
- trauma psicológico;
- dificuldades específicas da comunicação social;
- perturbações da personalidade;
- incapacidade intelectual ou outras condições do neurodesenvolvimento.
É possível existir autismo ao mesmo tempo que PHDA, ansiedade, depressão ou outras condições.
É necessário fazer análises, ressonância ou testes genéticos?
Não existe uma análise ao sangue, exame cerebral ou teste genético que confirme, por si só, um diagnóstico de autismo.
A Direção-Geral da Saúde estabelece que o diagnóstico deve ser clínico e que os exames complementares só devem ser pedidos quando há uma razão específica.
Uma ressonância, um eletroencefalograma ou um estudo genético podem ser necessários perante determinados sinais neurológicos, crises epiléticas, regressão, alterações no exame clínico ou suspeita de uma causa genética. Não fazem parte automaticamente de todas as avaliações.
Como começar o diagnóstico no SNS?
O primeiro passo pode ser marcar uma consulta com o médico de família ou outro médico assistente.
Na consulta, explique as dificuldades atuais e os motivos que o levam a suspeitar de autismo. Leve exemplos concretos, incluindo situações da infância, relações, trabalho, rotinas e sensibilidades sensoriais.
A norma da DGS prevê que um adulto com suspeita seja referenciado para consulta de especialidade hospitalar.
No contexto hospitalar, a decisão de diagnóstico, a proposta de acompanhamento e o seguimento devem ser efetuados por um psiquiatra, com o apoio de profissionais como neurologista, psicólogo, enfermeiro e assistente social.
A organização concreta das consultas pode variar consoante a Unidade Local de Saúde e os recursos disponíveis na região.
E no setor privado?
No setor privado, procure um profissional ou equipa com experiência específica em autismo na idade adulta.
Antes de marcar, pergunte:
- quem conduz a avaliação;
- que experiência tem com adultos;
- quantas consultas estão normalmente previstas;
- se é recolhida a história de desenvolvimento;
- se é realizado diagnóstico diferencial;
- se será entregue um relatório clínico completo;
- se existem custos adicionais associados aos instrumentos utilizados.
Uma avaliação limitada a um questionário ou a uma única pontuação deve ser vista com prudência.
Os testes online são fiáveis?
Os questionários online podem ajudar a pessoa a identificar temas que pretende discutir numa consulta. Não permitem, porém, confirmar nem excluir autismo.
Uma pontuação elevada também pode estar associada a outras condições, à forma como as perguntas foram interpretadas ou ao estado emocional da pessoa naquele momento.
Não altere medicação, não tome decisões profissionais importantes e não assuma um diagnóstico apenas com base num teste online.
O que deve levar para a avaliação?
- uma lista de dificuldades e exemplos concretos;
- informação sobre a infância e adolescência;
- relatórios escolares ou clínicos, se existirem;
- lista de diagnósticos anteriores;
- medicação atual;
- informação sobre ansiedade, humor, sono e atenção;
- questões que pretende esclarecer;
- um familiar ou pessoa próxima, caso seja útil e se sinta confortável.
Também pode anotar as situações em que funciona bem. Uma avaliação adequada não procura apenas dificuldades: deve considerar capacidades, estratégias e contextos favoráveis.
Autismo de nível 1 é o mesmo que síndrome de Asperger?
Não são sinónimos exatos.
A síndrome de Asperger era uma categoria separada em classificações anteriores. O DSM-5 integrou esse diagnóstico e outras categorias numa única designação: perturbação do espetro do autismo.
Muitos adultos anteriormente diagnosticados com síndrome de Asperger podem enquadrar-se atualmente no espetro sem incapacidade intelectual ou alteração estrutural da linguagem. Isso não significa, porém, que todas essas pessoas sejam automaticamente classificadas como nível 1.
O que acontece depois do diagnóstico?
O diagnóstico não altera a identidade da pessoa. Pode ajudar a compreender experiências passadas, reconhecer necessidades e escolher apoios mais adequados.
O acompanhamento deve ser individualizado e pode incluir:
- informação clara sobre o diagnóstico;
- apoio psicológico adaptado;
- estratégias para comunicação e organização;
- terapia ocupacional perante dificuldades sensoriais ou funcionais;
- adaptações no trabalho ou no ensino;
- tratamento de ansiedade, depressão, PHDA ou outras condições associadas.
Não existe medicação destinada a eliminar as características centrais do autismo. Os medicamentos podem ser usados quando existem outras condições ou sintomas que o justifiquem, mediante avaliação médica.
Quando faz sentido procurar uma avaliação?
Pode fazer sentido falar com um profissional quando as dificuldades são persistentes, remontam à infância e interferem com relações, trabalho, estudos, autonomia ou bem-estar.
O objetivo não deve ser encaixar à força num rótulo. Deve ser compreender o que explica melhor o funcionamento da pessoa e que apoio poderá ser útil.
Em resumo
O autismo de nível 1 significa que a pessoa necessita de apoio, mesmo quando fala fluentemente, trabalha, estuda ou vive de forma independente.
Os sinais podem envolver comunicação social, necessidade de rotina, interesses muito intensos, comportamentos repetitivos e diferenças sensoriais. Nenhum destes elementos, isoladamente, permite fazer um diagnóstico.
Em Portugal, a avaliação deve ser clínica e considerar o funcionamento atual, a história desde a infância e outras explicações possíveis. No SNS, o médico de família pode iniciar o processo de referenciação para uma consulta especializada.
Se precisar de apoio
Se está a passar por um momento de sofrimento emocional, não tem de o enfrentar sozinho. Pode ligar para o SNS 24 (808 24 24 24) e selecionar a opção de aconselhamento psicológico, disponível todos os dias, ou falar com o seu médico de família. Em situação de emergência, ligue 112.
Fontes:
- Direção-Geral da Saúde – Abordagem Diagnóstica e Intervenção na Perturbação do Espetro do Autismo
- SNS 24 – Espetro do autismo
- Organização Mundial da Saúde – Autism
- NICE – Autism spectrum disorder in adults: diagnosis and management
- National Institute of Mental Health – Autism Spectrum Disorder
- American Psychiatric Association – What Is Autism Spectrum Disorder?