Confiança dos portugueses nas notícias cai para 51%: redes e IA no fundo

Nuno Cruz

19 de Junho, 2026

Pessoa a comparar fontes de notícias no telemóvel, tablet, jornal e televisão

Os portugueses continuam entre os europeus que mais confiam nas notícias, mas essa confiança já não é igual em todos os sítios nem em todos os temas.

O Digital News Report Portugal 2026, divulgado pelo OberCom em colaboração com o Reuters Institute for the Study of Journalism, mostra um retrato com duas leituras ao mesmo tempo: Portugal mantém níveis de confiança relativamente altos, mas há sinais claros de desgaste, sobretudo nas redes sociais, nos conteúdos mediados por inteligência artificial e em temas mais divisivos.

O ponto mais frágil não está nas marcas jornalísticas em si, mas no ambiente onde a notícia circula.

Em poucas linhas

  • 51% dos portugueses dizem confiar nas notícias em geral.
  • Portugal está acima da média global de confiança, que é de 37%.
  • A confiança caiu face a 2015, quando chegava aos 66%.
  • As redes sociais são o ambiente com menor confiança nas notícias: 21%.
  • Os chatbots de inteligência artificial surgem com 24% de confiança.
  • Os motores de busca ficam melhor posicionados, com 40%.
  • 76% dos portugueses estão preocupados com a desinformação online.
  • Os mais jovens, sobretudo os homens, confiam menos nas notícias.
  • Por tema, a guerra da Ucrânia é a cobertura mais bem avaliada.
  • Migração e imigração são os temas onde os media enfrentam maior contestação.

Portugal ainda confia nas notícias, mas menos do que antes

Segundo o Digital News Report Portugal 2026, 51% dos portugueses dizem confiar nas notícias em geral. O valor continua a colocar Portugal acima da média global, que é de 37%.

Mas a tendência de longo prazo é menos confortável. Em 2015, a confiança em notícias em geral era de 66%. Em 2026, está nos 51%.

Também há diferença entre confiar nas “notícias em geral” e confiar nas notícias que cada pessoa consome. O relatório indica que os portugueses tendem a confiar um pouco mais nas notícias que escolhem ou acompanham do que no sistema noticioso visto de forma abstrata.

As marcas concretas continuam mais fortes

Um dos dados mais importantes do relatório é este: quando a pergunta passa das notícias em geral para marcas concretas, a confiança melhora.

Entre as marcas avaliadas e conhecidas pelos inquiridos, estas são as quatro com maior confiança:

  • RTP – 79% de confiança
  • Jornal de Notícias – 78%
  • SIC – 77%
  • Rádio Renascença – 76%

O relatório também mostra que todas as marcas avaliadas têm maioria de confiança entre os inquiridos que as conhecem.

Isto sugere que muitos portugueses podem dizer que desconfiam “das notícias” em abstrato, mas continuam a reconhecer credibilidade a marcas jornalísticas concretas.

Onde a confiança cai mais: redes sociais e IA

A diferença torna-se mais clara quando se olha para o ambiente onde a notícia aparece.

As notícias em geral recolhem 51% de confiança. Nos motores de busca, o valor desce para 40%.

Nas redes sociais, a confiança cai para 21%. É o valor mais baixo entre os ambientes analisados. Não é por acaso: há cada vez mais preocupação com o que circula nestas plataformas, e vários países chegaram mesmo a restringir o uso de redes sociais aos menores de idade.

Os chatbots de inteligência artificial, medidos pela primeira vez neste indicador, surgem com 24%. Ficam acima das redes sociais, mas muito abaixo das notícias em geral e dos motores de busca. A própria forma como interagimos com ferramentas como o ChatGPT influencia as respostas que recebemos, o que ajuda a explicar alguma cautela do público.

A leitura prática é simples: os portugueses continuam a distinguir entre jornalismo, plataformas e sistemas automáticos de mediação. A notícia pode ser a mesma, mas o local onde aparece muda a perceção de credibilidade.

Em que temas os portugueses confiam mais?

O relatório não pergunta apenas se os portugueses confiam nas notícias. Também avalia se acham que os media fazem bom ou mau trabalho em diferentes assuntos.

Neste ponto, a cobertura da guerra da Ucrânia é a mais bem avaliada. Cerca de 40% dos inquiridos consideram que os media fazem um bom trabalho neste tema, contra 18% que dizem o contrário.

A inflação e o custo de vida surgem a seguir, com 32% de avaliações positivas. A situação no Médio Oriente também fica nos 32%.

As alterações climáticas recolhem 30% de avaliações positivas e o segundo mandato de Donald Trump fica nos 29%.

Estes números não significam que a maioria esteja entusiasmada com a cobertura. Em quase todos os temas, pesa muito a resposta intermédia: “nem bom nem mau trabalho”. Isso aponta para um público cauteloso, que nem rejeita totalmente nem valida sem reservas.

Onde há mais desconfiança: migração e imigração

O tema mais problemático é a migração e imigração.

Segundo o relatório, apenas 24% dos portugueses consideram que os media fazem um bom trabalho nesta cobertura. Ao mesmo tempo, 30% dizem que fazem mau trabalho.

É o único tema, entre os analisados, em que as avaliações negativas ultrapassam claramente as positivas.

Isto não significa que todas as pessoas desconfiem das notícias sobre imigração. Significa que este é o tema onde a cobertura jornalística encontra maior contestação e menor consenso público.

Desinformação preocupa três em cada quatro portugueses

Outro dado importante é a preocupação com o que é real e falso na Internet.

O Digital News Report Portugal 2026 indica que 76% dos portugueses estão preocupados com a desinformação online. O valor está acima da média global, que é de 62%.

Esta preocupação ajuda a explicar a desconfiança em ambientes como redes sociais e plataformas digitais. O problema não é apenas a notícia em si. É o contexto em que aparece, quem a partilha, se tem fonte clara e se está misturada com opinião, boatos ou conteúdos manipulados.

O que isto diz sobre os portugueses

O relatório mostra um público mais desconfiado, mas não necessariamente indiferente.

Há uma diferença importante entre desconfiar de tudo e tentar distinguir fontes. Em Portugal, a confiança nas marcas jornalísticas continua relativamente forte, mas a circulação da notícia em redes sociais, IA e ambientes digitais mais fechados levanta mais reservas.

Também há uma divisão geracional. A confiança tende a aumentar com a idade. O relatório mostra que os jovens, sobretudo os homens mais jovens, apresentam níveis mais baixos de confiança nas notícias em geral.

O que muda para quem lê notícias

Para o leitor, a mensagem mais útil é esta: não basta olhar para o tema. Também importa ver a fonte e o caminho por onde a informação chegou.

Uma notícia vista numa rede social pode ser verdadeira, mas o contexto pode omitir dados, exagerar o título ou misturar informação com opinião. Um resumo de IA pode ajudar a perceber um tema, mas também pode errar, cortar nuances ou não mostrar claramente a fonte original, como se viu quando a IA mostrou os seus limites perante um problema simples.

Esta cautela ganha ainda mais peso à medida que decisões automáticas entram no dia a dia. Em Portugal, o Governo quer impedir que certas decisões sejam tomadas apenas por algoritmos, sinal de que a confiança em sistemas automáticos é um tema cada vez mais presente.

Por isso, em temas sensíveis como imigração, guerra, eleições, saúde, preços ou apoios públicos, vale a pena confirmar a origem da informação e procurar fontes identificadas.

Em resumo

O Digital News Report Portugal 2026 mostra que os portugueses continuam a confiar mais nas notícias do que a média global, mas essa confiança está a diminuir.

As marcas jornalísticas concretas mantêm níveis fortes de confiança. A RTP, o Jornal de Notícias, a SIC e a Rádio Renascença aparecem no topo entre as marcas avaliadas.

Já as redes sociais e os chatbots de inteligência artificial são ambientes de menor confiança. Nos temas, a guerra da Ucrânia é a cobertura mais bem avaliada, enquanto migração e imigração surgem como o terreno onde há maior contestação.

A conclusão não é que os portugueses deixaram de confiar nas notícias. É mais precisa: confiam mais quando reconhecem a fonte, e desconfiam mais quando a informação chega por ambientes digitais onde é difícil perceber origem, contexto e intenção.

Fontes