O caso René Redzepi explicado: o que aconteceu no Noma

Nuno Cruz

14 de Março, 2026

Fotografia de René Redzepi

René Redzepi, um dos nomes mais influentes da gastronomia mundial, voltou ao centro das atenções por razões muito diferentes da cozinha que o tornou famoso. O chef dinamarquês anunciou que se afasta da operação diária do Noma, em Copenhaga, depois de novas alegações de maus-tratos a ex-funcionários.

O caso ganhou força poucos dias antes da residência do Noma em Los Angeles, que abriu sob protestos e depois da saída de patrocinadores. Para quem apanhou o tema a meio, este é o essencial para perceber o que está em causa.

Em resumo

  • René Redzepi anunciou que se afasta da operação diária do Noma.
  • O novo escrutínio surgiu após relatos de ex-funcionários sobre maus-tratos no restaurante, citados por vários meios internacionais.
  • O caso rebentou à porta da nova temporada do Noma em Los Angeles, com protestos e perda de patrocinadores.
  • O Noma diz que mudou várias práticas desde 2022, incluindo estágios pagos, semana de quatro dias e reforço de recursos humanos.

Quem é René Redzepi e porque é que o nome pesa tanto

Redzepi é cofundador do Noma, restaurante criado em 2003 e transformado num símbolo da chamada “nova cozinha nórdica”. Ao longo dos anos, o Noma acumulou distinções raras: foi eleito cinco vezes o melhor restaurante do mundo pelo ranking The World’s 50 Best Restaurants e aparece hoje com três estrelas Michelin.

Essa influência ajudou a mudar a forma como muitos restaurantes pensam ingredientes locais, sazonalidade, fermentação e menus de autor. Por isso, quando o nome de Redzepi entra numa polémica, a história deixa de ser apenas sobre um restaurante e passa a tocar toda a cultura da alta cozinha.

O que está a ser alegado

O novo ciclo de polémica nasce de testemunhos de antigos trabalhadores do Noma, citados por meios internacionais, sobre episódios de maus-tratos físicos e psicológicos entre 2009 e 2017. Esses relatos incluem humilhação, intimidação e alegadas agressões dentro do ambiente de trabalho.

As alegações não surgiram do nada, o tema já pairava há anos sobre o restaurante, incluindo críticas ao uso prolongado de estagiários não pagos. Mas a publicação recente de novos relatos e a sua amplificação nas redes sociais voltaram a colocar o assunto no centro do debate.

Porque é que o caso explodiu agora

Há um motivo muito claro para o timing: o caso rebentou dias antes da abertura da residência do Noma em Los Angeles, um projeto muito mediático e de preço elevado, o que aumentou a atenção pública e a pressão sobre a marca.

Nesse contexto, houve protestos à porta do evento e parceiros comerciais afastaram-se. Ou seja, a história deixou rapidamente de ser apenas um tema interno da restauração e passou a ser uma crise pública de reputação.

O que respondeu René Redzepi

Na sua reação pública, Redzepi disse que não reconhece todos os detalhes dos relatos, mas admitiu ver neles comportamentos seus que foram prejudiciais para pessoas que trabalharam com ele. Também afirmou que um pedido de desculpa não chega para reparar o passado.

Depois disso, anunciou que se afasta da operação diária do Noma e que sai também da direção da MAD, organização sem fins lucrativos ligada ao setor alimentar que ajudou a fundar.

O que o Noma diz ter mudado

O Noma sustenta que a estrutura interna do restaurante já mudou de forma relevante nos últimos anos. Segundo a informação publicada pelo próprio restaurante, desde 2022 passaram a existir estágios pagos, uma função dedicada de recursos humanos, melhores horários, benefícios reforçados, semana de quatro dias para a equipa do restaurante e uma auditoria externa ao ambiente de trabalho.

Na operação de Los Angeles, o Noma diz também que não está a usar estagiários e que os trabalhadores locais foram contratados como funcionários a tempo inteiro.

O que acontece a seguir

Para já, a residência do Noma em Los Angeles continua sem Redzepi na operação diária. O que ainda não está totalmente claro é até que ponto este afastamento altera a sua posição como co-proprietário e como figura central da marca no médio prazo.

Mas mais do que a carreira de um chef, o caso reacendeu uma discussão maior: até que ponto o fine dining continuou durante anos a normalizar modelos de liderança duros ou abusivos em nome da excelência. Essa é, no fundo, a razão pela qual esta história está a ser seguida muito para lá do mundo da gastronomia.

O caso René Redzepi não apaga a importância que o Noma teve na cozinha contemporânea. Mas obriga a olhar para outro lado da história: o de saber se uma reputação de excelência pode continuar separada da forma como essa excelência foi construída.

Fontes: