Dia dos Namorados: a história por trás do 14 de fevereiro

Nuno Cruz

14 de Fevereiro, 2026

Uma mesa com velas, corações e duas chávenas.

O Dia dos Namorados (14 de fevereiro) parece moderno — flores, chocolates, jantares — mas a história é bem mais antiga e cheia de zonas cinzentas.

Há um santo (ou dois) chamado Valentim, há uma ligação muitas vezes repetida à Roma Antiga e há um momento decisivo na Idade Média em que a data passa, finalmente, a ser associada ao amor romântico.

Quem foi São Valentim e porque há dúvidas

O ponto de partida é religioso: São Valentim é o nome atribuído a um ou mais mártires cristãos do século III. As fontes históricas são escassas e a própria Igreja reconhece que a biografia é pouco clara — o que ajudou a multiplicar lendas ao longo dos séculos.

Em versões populares, Valentim teria desafiado ordens do imperador ao celebrar casamentos em segredo. Essa história existe, mas não é fácil provar com a documentação existente. O que é relativamente consensual é que houve um mártir com esse nome, associado a Roma/Itália, e que 14 de fevereiro ficou ligado à sua memória.

Lupercália: a origem pagã é certa?

Muitas explicações do Dia dos Namorados apontam para a Lupercália, um festival romano de meados de fevereiro relacionado com purificação e fertilidade. Também é comum ler que o Papa Gelásio I substituiu a Lupercália por um dia de São Valentim.

Embora exista proximidade no calendário e a teoria seja muito repetida, historiadores dizem que a ligação direta é fraca — ou seja, a Lupercália pode ajudar a explicar o ambiente cultural do período, mas não há uma linha histórica simples do tipo “acabou um festival e começou o outro”.

Quando é que se tornou o dia do amor?

A grande viragem acontece muito mais tarde: século XIV. O Dia de São Valentim passa a ganhar conotações românticas no contexto do amor cortês (a cultura medieval de poesia e cortejo). Um dos nomes mais citados é Geoffrey Chaucer, que associou o “Dia de São Valentim” a aves a escolherem par no poema Parliament of Fowls (c. 1382), ajudando a fixar a ideia de que fevereiro podia ser mês do amor.

Dos bilhetes às prendas: como nasceu a tradição dos “valentines”

Depois da literatura, vieram as mensagens. Um marco frequentemente apontado é a carta de 1477 de Margery Brews para John Paston, onde ela lhe chama “o meu Valentine” — um exemplo precoce do uso romântico do termo na escrita inglesa.

Com o tempo, a tradição cresce:

  • Séculos XVII–XVIII: troca de bilhetes, poemas e pequenas lembranças (sobretudo no Reino Unido).
  • Século XIX: produção industrial de cartões e a consolidação do mercado do Dia dos Namorados.
  • Século XX–XXI: globalização da data e novas formas de celebrar (experiências, viagens, date nights, etc.).

E em Portugal? 14 de fevereiro e o “santo casamenteiro”

Em Portugal, 14 de fevereiro é o Dia dos Namorados por influência cultural internacional e do calendário de São Valentim.

Mas há um detalhe muito português: Santo António é, tradicionalmente, o santo casamenteiro, especialmente em Lisboa. A cidade mantém a tradição dos Casamentos de Santo António, promovidos pela Câmara Municipal (um evento que existe desde 1958 e acontece em junho, nas festas populares).

Mesmo em fevereiro, há iniciativas culturais que brincam com esta ideia de “namorar em fevereiro e casar em junho” — por exemplo, atividades do Museu de Lisboa – Santo António ligadas ao Dia dos Namorados.

Em resumo

  • Não há uma história única e totalmente comprovada para o Dia dos Namorados — há camadas (religião, literatura, tradição social e comércio).
  • A ligação à Lupercália é popular, mas disputada por historiadores.
  • O “Dia do amor” ganha força na Idade Média e explode com a industrialização dos cartões.
  • Em Lisboa, Santo António continua a ser o nome mais associado a casamentos e tradição popular.

Fontes